Como o dentista pode acolher pacientes com transtornos do neurodesenvolvimento

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Novembro 1, 2025

Dr. Marcelo Abla

O atendimento odontológico de pacientes com transtornos do neurodesenvolvimento (TND) — como autismo, TDAH, deficiência intelectual, transtornos de comunicação e condições genéticas associadas a atrasos — exige sensibilidade, preparo e metodologia.
Durante muito tempo, a odontologia tratou esses pacientes sob a lente da dificuldade. Hoje, a abordagem precisa ser diferente: não se trata de “controlar comportamentos”, mas de entender experiências.

Cada paciente chega ao consultório com uma história sensorial, cognitiva, emocional e social. É papel do dentista criar um ambiente que respeite essas particularidades, ofereça segurança e permita que o cuidado aconteça de forma honesta e digna.

Este artigo discute como a odontologia pode acolher esses pacientes de maneira mais efetiva, ética e humanizada.


1. Entender o transtorno é o primeiro passo para acolher o paciente

A base de um atendimento adequado começa antes do contato clínico.
É essencial que o dentista compreenda:

  • como o transtorno se manifesta;
  • quais são as principais sensibilidades sensoriais;
  • quais comportamentos e reações são esperados;
  • como o paciente se comunica;
  • quais são seus gatilhos e fatores de ansiedade;
  • como ele lida com novidade, toque, ruído e estímulos.

Não se trata de rotular, mas de personalizar o cuidado.
Cada pessoa com TND é única, e um mesmo diagnóstico pode aparecer com características completamente diferentes.


2. A preparação começa antes da consulta: comunicação com a família

Pacientes com transtornos do neurodesenvolvimento se beneficiam de previsibilidade.
Por isso, o contato prévio com cuidadores e familiares é fundamental.

Algumas informações importantes incluem:

  • como o paciente reage a ambientes novos;
  • o que costuma gerar desconforto;
  • quais estratégias funcionam em situações difíceis;
  • horários em que está mais regulado;
  • objetos de segurança (fones, brinquedos, itens sensoriais);
  • nível de compreensão verbal;
  • histórico de experiências odontológicas anteriores.

Essa etapa permite ao profissional antecipar necessidades e evitar estímulos desnecessários.


3. Um consultório preparado reduz estresse e aumenta cooperação

Pacientes com TND podem apresentar hipersensibilidade a luzes fortes, sons constantes, cheiros e movimentações rápidas.
O ambiente precisa ser planejado.

Alguns ajustes de baixo custo fazem grande diferença:

  • luz indireta ou intensidade reduzida;
  • ruído mínimo;
  • sala de espera silenciosa;
  • evitar cheiros fortes de materiais;
  • permitir objetos de autorregulação (fidget, manta, fone abafador);
  • acesso rápido ao consultório, sem longas esperas.

Ambientes previsíveis reduzem ansiedade e promovem segurança emocional.


4. Comunicação é cuidado: adaptá-la ao paciente é essencial

A forma como o dentista se comunica influencia diretamente o sucesso do atendimento.
Algumas condutas importantes incluem:

  • usar frases curtas e diretas;
  • evitar metáforas ou linguagem ambígua;
  • mostrar os instrumentos antes de usá-los;
  • demonstrar no ar ou no próprio braço o que será feito;
  • utilizar reforço positivo;
  • respeitar o tempo do paciente;
  • permitir pausas quando necessário.

A comunicação deve ser concreta, simples e previsível.


5. Prova de rotina: introduzir o atendimento de forma gradual

Para muitos pacientes com TND, o primeiro contato não precisa — e não deve — ser um procedimento.
A consulta inicial pode incluir:

  • conhecer o consultório;
  • sentar na cadeira sem reclinar;
  • ouvir o barulho dos instrumentos;
  • permitir que o paciente toque materiais não invasivos;
  • construir vínculo.

Essa “consulta de dessensibilização” ajuda a:

  • diminuir medo de ambientes clínicos;
  • estabelecer confiança;
  • facilitar consultas futuras;
  • reduzir resistência durante procedimentos.

O objetivo é transformar o consultório em um lugar familiar e seguro.


6. Sessões mais curtas e foco em prioridades

Pacientes com transtornos do neurodesenvolvimento podem ter limitação de tempo atencional ou baixa tolerância a estímulos prolongados.
Por isso, o planejamento deve considerar:

  • consultas breves;
  • divisão de procedimentos em etapas;
  • tempo extra para adaptação;
  • evitar sobrecarga sensorial;
  • iniciar pelo que é mais urgente, sem exceder o limite emocional do paciente.

Forçar o tempo clínico prejudica o tratamento e pode gerar retraumatização.


7. A presença de familiares e cuidadores como suporte emocional

A presença de alguém de confiança ajuda no processo de regulação emocional.
Cuidadores:

  • servem como referência afetiva;
  • ajudam na comunicação;
  • identificam sinais de estresse;
  • contribuem para o manejo comportamental;
  • reforçam orientações de higiene e cuidados domiciliares.

O objetivo não é substituir o profissional, mas formar uma parceria no cuidado.


8. Tecnologias e estratégias para facilitar o atendimento

Entre as ferramentas úteis estão:

  • fones abafadores;
  • óculos escuros;
  • mantas pesadas;
  • música ambiente suave;
  • vídeos calmantes;
  • brinquedos sensoriais;
  • cronômetros visuais;
  • comunicação alternativa (figuras, cartões, rota de passos).

Recursos simples podem determinar se uma consulta será viável.


9. Empatia: o elemento clínico que não aparece no prontuário

Acolher pacientes com transtornos do neurodesenvolvimento não é apenas conhecimento técnico.
Exige postura humanizada:

  • paciência;
  • ausência de julgamento;
  • flexibilidade;
  • escuta ativa;
  • respeito pelos limites do paciente;
  • sensibilidade para interpretar sinais não verbais.

Empatia não substitui técnica, mas sem ela a técnica não chega ao paciente.


Conclusão

Oferecer atendimento odontológico a pacientes com transtornos do neurodesenvolvimento é um compromisso com a inclusão, a saúde e a dignidade. Esses pacientes não precisam de uma odontologia diferente, mas de uma odontologia que se adapte, que compreenda suas necessidades sensoriais, emocionais e comunicativas, e que reconheça a importância de um ambiente seguro.

Quando o dentista entende o contexto e respeita o tempo de cada pessoa, o consultório deixa de ser uma fonte de ansiedade e passa a ser um espaço de cuidado real.

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Marcelo Sabbag Abla é Doutor e Mestre em Implantodontia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, além de especialista em Biologia Celular pela Universidade Federal Paulista de Medicina.
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